1 de dezembro de 2014

Carta ao torcedor do Botafogo


Prezado(s) torcedor(es) do Botafogo

Aqui quem fala é um co-irmão. Dividimos as mesmas cores, o mesmo sofrimento e por muito tempo dividimos o mesmo “azar”. Apesar de vocês serem nossos algozes em algumas... quer dizer, muitas, decisões por mata-mata, eu gosto de vocês. Tenho uma empatia natural pelos mais sofridos, acho que sofrimento molda o caráter. Nos ensina a lidar melhor com as desgraças da vida. Quem ganha tudo se acostuma mal, se torna mimado e quando se depara com a verdadeira derrota se comporta pateticamente, tentando desmerecer a conquista do outro ou usando de argumentos imbecis de desdém. Dessa falha de caráter nós não sofremos, pois aprendemos desde cedo que para conquistarmos algo tem de ser tudo com muita luta. Nada é fácil. Sei reconhecer conquistas, como me comportar nas derrotas e tudo isso foi ensinado pelo meu time.

No próximo fim de semana meu time joga com o de vocês numa partida que não vale absolutamente mais nada pra nenhum dos dois lados. Sei (e como sei) que aquilo que vocês menos precisam agora é da compaixão de torcedor de outro time, mas acredite... eu sei
o desânimo...
exatamente o que vocês estão passando. E não só eu, mas torcedores como os de Internacional e Santos também sabem. Digo isso pois me lembro de ouvir uma “carta-desabafo” no extinto Cartão Verde da TV Cultura, lá pelos idos 
de 2000, sobre o sofrimento que era torcer pro Santos. Viver de um passado tão distante e de não poder sonhar com nada de positivo em breve. Em 2002 surgiram Diego, Robinho e aquela geração que deu início a uma nova era no clube da Vila. Me lembro também de um texto que li numa Revista Placar em 2001 (que jamais reli e não sei o autor), de um torcedor do Internacional, mergulhado naquele espiral de derrotas sem fim que era o Inter nos anos 90. Citou até o Atlético neste texto. E em 2006 veio a glória suprema.

Vocês vivem hoje mais um momento extremamente delicado. Acabaram de cair para a Série B, dívidas monstruosas assolam o clube e olhando pro futuro, vocês parecem não sentir mais esperança.

Acreditem. Eu também já me senti assim.

Um dia eu também cheguei a pensar que jamais iria ter um retorno do meu time em campo. Aliás, vivia sem nem ao menos esperar mais alguma coisa ou conquista, continuava apenas porque amava aquele time e me encontrar com ele nos fins de semana ou nas noites de quarta era algo que ainda, de certa forma me fazia bem. 


Foto: Michel Filho / Agência O Globo

Hoje meus caros, os atleticanos vivem um sonho.

Sabe quando eu pensei em ver o Atlético campeão da Libertadores? Ganhando uma Copa do Brasil em cima do maior rival? Ganhando uma Recopa Sul Americana? Tendo um dos maiores jogadores do mundo em seu elenco? Poder ver ao vivo verdadeiros ídolos como Diego Tardelli, Victor, Luan e Leonardo Silva? Pois é... nunca. Nem nos sonhos mais otimistas.

Por isso eu peço a vocês que tenham calma, mas que não abandonem o Botafogo.

Eu já passei por tudo isso aí... e hoje, graças ao Bom Deus vejo a melhor geração da história do meu time. Uma história construída diante dos meus olhos. Os meus outrora desanimados e desesperançados olhos, tem hoje o privilégio de poder ver e no futuro contar aos netos sobre Luan, Leonardo Silva, Diego Tardelli e o “santo” Victor.

Eu me lembro de ver vocês campeões com aquele fantástico ataque formado por Tulio Maravilha e Donizete. Inclusive torci
muito por vocês naquela final de 95. Assim como torci para o Corinthians naquela Libertadores de 2012 e consequentemente no Mundial de Clubes. Para o Internacional em 2006 e 2010. Para o Santos em 2002. E como nunca para a Ponte Preta na final da Sul Americana em 2013.  Como eu disse, gosto de quem é moldado pelo sofrimento.

O que assola o Botafogo hoje é o fantasma do “precisa ganhar”, a pressão que vira uma bola de neve gigantesca de tragédias, derrotas e “azar”. Vocês vão ver que quando um muro cair, o horizonte que aparecerá a frente será glorioso. E tudo vai ser bom. Vão acontecer derrotas, mas as lembranças das vitórias jamais se esvairão.

É difícil e pode parecer piada hoje, mas no dia em que o Botafogo
estiver lá, disputando uma final de Libertadores a um passo de vencer... lembrem-se de mim. Lembrem-se que eu, atleticano mineiro, estarei em algum lugar torcendo por vocês. Porque todo mundo merece a glória de ser campeão. Todo mundo, merece se embebedar um pouco com uma alegria tão efêmera como essa que nos traz o futebol.

Impossível? Apenas lembrem-se que para nós também era. E lhes confesso que nossas vitórias não seriam tão doces se não fossem pelos amargos que já passamos nessa longa estrada.


É por eles que vocês não devem desistir

Amigos botafoguenses, meu time é a prova viva de um clichê que pode ser utilizado também para vocês: O IMPOSSÍVEL NÃO EXISTE!

Levanta a cabeça, Fogão!

Saudações Atleticanas.