5 de dezembro de 2014

Sala de Imprensa: Qual é o segredo de Santa Catarina?

Foto: Luiz Henrique/FFC


Santa Catarina definitivamente é o estado que mais chama atenção atualmente no futebol brasileiro. Com 20% dos times que estarão na Série A em 2015, a piadinha "zero da 101" outrora contada por gaúchos e paranaenses já não faz mais sentido: serão 4 equipes catarinenses contra apenas 2 de cada um dos vizinhos sulistas. SC ainda bate de longe estados tradicionais como Pernambuco, Bahia e quem diria, o Rio de Janeiro que só contará com 3 representantes na elite nacional no ano que vem.

Mas pra quem está no dia a dia do futebol catarinense não é nenhuma surpresa. Conversamos com os colegas que fazem a cobertura do esporte no estado e acompanham de perto essa evolução. Eles respondem a uma pergunta que todo o país faz nesse momento:


Afinal, qual é a razão do sucesso dos times de Santa Catarina no cenário nacional?


GUSTAVO BOSSLE - Repórter e produtor da TV Band SC e da Rádio Band FM - Florianópolis


A rivalidade entre Avaí e Figueirense e a rivalidade entre capital e interior é a grande responsável por esse crescimento. Uma coisa puxa a outra. O nível de exigência do "consumidor" cresce a medida que os concorrentes aumentam a qualidade de seu produtos. Com o título brasileiro da Série C conquistado em 1998 pelo Avaí, no ano seguinte, o Figueira se reorganizou e chegou à elite antes mesmo que o rival. Depois tivemos uma Série A com Avaí e Figueira, os clubes do interior não quiseram ficar pra trás e também focaram no acesso. A rivalidade foi o principal combustível. Mas inegavelmente Criciúma, Chapecó, Floripa e Joinville são ótimas cidades para se morar. Isso atrai bons profissionais do futebol e, consequentemente, melhora a qualidade do nosso produto. Então temos: rivalidade + bons profissionais = sucesso catarinense.



JANNITER DECORDES - Repórter e narrador da Rádio CBN Diário - Florianópolis


Acredito que a organização e a política do pé no chão. A filosofia de gastar muito, apostar em medalhões que não dão resultado, já era por aqui.



GABRIEL FRONZI - Repórter da Rádio 89 FM de Joinville


Planejamento!

Diferente de várias praças no cenário nacional, em Santa Catarina os clubes trabalham com uma filosofia de pés no chão. Como a escassez de recursos é muito grande, os tiros devem ser certeiros, sem chance para erros. Desta forma, acreditar em um planejamento a longo prazo é a grande alternativa. Porém, o futebol é uma arte imediatista. Os resultados, para os torcedores, precisam acontecer rodada após rodada. A Chapecoense manteve a base. Subiu de forma meteórica nas três primeiras sérias do Campeonato Brasileiro. Neste ano, com o orçamento da série A, poderia ter ampliado o investimento no elenco, mas preferiu guardar o dinheiro em caixa. O Figueirense, campeão estadual, vive um ótimo momento, conduzido por uma diretoria que vive o vestiário do clube. Quando o Figueirense preferiu o imediatismo, inflou uma crise e quase colocou sua vaga na série A em risco. No Avaí, o verdadeiro milagre. Um time de pouca qualidade técnica e vários problemas extra-campo, motivados pelo atraso de salários. O grande trunfo para o sucesso no ano tem nome: Geninho. Um técnico que tirou leite de pedra e conseguiu o objetivo com maestria. No Joinville, o melhor exemplo de todos. Em uma comissão técnica com César Sampaio, Ramon Menezes e Sérgio Ramirez, o promissor Hemerson Maria teve segurança e liberdade para formar um time vencedor. Com apenas uma derrota em 29 jogos diante da sua torcida, o Joinville fez de sua Arena uma fortaleza. Vice-campeão estadual, campeão da série B. Os méritos do Joinville no ano são creditados a formação de um grupo sem vaidades, com muitos atletas experientes.



CLODOALDO PEREIRA - Narrador da Rádio Guarujá - Florianópolis


A grande força de Santa Catarina em relação ao futebol na minha visão é apenas uma: os outros estados enfraqueceram. São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul estão perdendo força no eixo. Isso por falta de organização financeira, administrações ruins. Jogadores bons estão no exterior. Aqui conseguimos reunir boas administrações e montagens de times que os fazem competitivos. Não tem muito segredo.





RODRIGO GOULART - Editor de Esportes e colunista do jornal Diário do Iguaçu e repórter/comentarista da Rádio Chapecó

Em minha opinião, uma das razões é o fato de não termos times de torcida estadualizada – ao contrário do vizinho RS, por exemplo, onde a dupla Gre-Nal domina a preferência em todo o território gaúcho. Por consequência, isso cria uma forte rivalidade entre as regiões. Oeste (Chapecoense), Norte (Joinville), Sul (Criciúma) e capital (Avaí e Figueirense) protagonizam verdadeiras batalhas pela hegemonia do Catarinão. Porém,  o estado de Santa Catarina ficou pequeno para estas equipes, até porque o Estadual é pouco rentável, e a saída foi buscar espaço nos campeonatos brasileiros, onde a grana jorra. A sede de ir mais longe em nível nacional aguçou a rivalidade, algo indispensável para o crescimento. A concorrência é sempre salutar. O aumento do número de equipes catarinenses na Série A não se deve apenas à rivalidade regional. Chapecó, Criciúma, Florianópolis e Joinville respiram futebol. A imprensa esportiva nestas cidades é atuante. Apoia, mas também cobra, assim como os torcedores, que não são poucos. Existe pressão. Diferentemente do que acontece em outros municípios do interior do Brasil que já tiveram clubes na elite, por aqui o insucesso é sentido e ninguém quer isso. A comunidade abraça a causa e o poder público é parceiro.



RÔMULO BALBINOTTI - Repórter da RIC Record e Rádio Record AM - Florianópolis


Organização, competência e um pouco de sorte. O Joinville, por exemplo, se preparou para esse momento. Saiu da Série D e foi subindo degrau por degrau, com organização e transparência na sua administração. A Chapecoense, que viveu algo parecido, paga rigorosamente em dia e faz uma grande triagem na hora de contratar algum jogador. Ou seja: o risco de errar fica pequeno. O Avaí subiu sem apresentar um bom futebol. Subiu com alguns méritos, mas também por incompetência dos adversários, que não souberam aproveitar os vacilos da equipe de Geninho ao longo da Série B. Aqui em Santa Catarina, cada região abraça o seu clube, o que torna o futebol super descentralizado, diferente do RS, por exemplo. É um estado rico e que prega muito pela organização. Os clubes não rasgam dinheiro, não fazem loucuras e costumam pagar os salários em dia.