6 de fevereiro de 2015

8 de Fevereiro de 2007

Este texto foi escrito em 2008, quando eu ainda estava no 3° período da faculdade de jornalismo. Foi destinado a um jornal experimental que tínhamos na faculdade e nem lembro se foi publicado ou não. Mexendo nos meus arquivos, eis que ele ainda estava lá. Perdoem os erros de forma e escrita, pois deixei quase que exatamente como naquela época. Conta a história de um dos jogos mais legais que presenciei, na época trabalhava para a Rádio Divinópolis AM e tive o prazer de acompanhar da beira do campo esse que foi, com certeza, um dos maiores jogos da história do Guarani e que o Farião já recebeu.



Quinta feira, 8 de fevereiro de 2007. Estádio Waldemar Teixeira de Faria, Divinópolis-MG. Nesta data era escrita mais uma daquelas páginas históricas do futebol, que fazem este ser não somente mais um esporte, mas a maior invenção do homem na Terra. Curiosamente, esta página apesar de histórica não envolve grandes astros, milhões de euros, glamour, apenas prova mais uma vez o poder imprevisível do futebol.

Guarani x América entravam em campo, naquele que era pra ser o jogo inaugural do campeonato, mas que o destino por meio das chuvas acabou tirando da data original. Nada melhor, o jogo tinha que ser naquele dia. Como o “se” é parte integrante do futebol, se fosse na data de estreia, poderia ser apenas mais um jogo comum do campeonato, daqueles que se apagam facilmente na memória do torcedor. Mas as águas que quase inundaram o Farião semanas antes iriam servir para lavar e - segundo a superstição - dar sorte no caminho da estreia do Bugre em casa, como na lavagem da escadaria do Bonfim. A passagem então estava livre para matar a saudade do torcedor mais apaixonado do interior mineiro, de ver o time atuando de novo na cidade após quase 1 ano.

Lance do jogo: Cafu na marcação do atacante americano
O Guarani estreou no campeonato sofrendo uma goleada para o Cruzeiro no Mineirão e vinha de um empate por 0 x 0 em Ituiutaba. O jogo contra o América começou equilibrado e assim foi durante todo o primeiro tempo. No retorno para a segunda etapa, a promessa por parte dos jogadores de que seria melhor. E foi. Haender, aos 11 do 2º tempo, abriu o placar para o Bugre. Parecia que tudo ia bem, mas não durou muito tempo. 5 minutos depois o América conseguiu o empate. O gol deu ânimo ao Coelho, que de imediato conseguiu a virada. Caçapa, depois Maranhão decretavam a derrota do Bugre em casa: América 3 x 1!

A charanga alvi-verde (composta por umas 8 ou 9 pessoas) fazia um barulho que chegava a ser estridente dentro de mais de 1500 ouvidos dos torcedores do Guarani. O silêncio que tomava conta do Farião era enorme. Mas invocando as palavras de Nelson Rodrigues, o “Sobrenatural de Almeida” estava no Farião naquela tarde-noite de fevereiro. E vestia vermelho e branco. Só que desta vez, ele tinha nome e número: Jajá. Camisa 16 do Guarani. Garoto franzino, vindo do interior do Ceará, ele entrou com o jogo praticamente perdido para escrever uma história daquelas que serão contadas daqui a 15 anos nas esquinas da cidade, e com os mais novos ou aqueles que não viram, duvidando se o tal incrível feito teria mesmo acontecido.
Jajá: de reserva a artilheiro do Mineiro

Quando o Guarani fez 3 x 2 (com Jajá) a torcida aplaudia, reconhecendo ao menos a vontade do time. Mas ainda tinha algo no ar, e na cabeça de todos os presentes no estádio aquela tarde: aquele resultado não era definitivo! O Guarani impôs uma pressão assustadora, quase nunca vista e sem mais nada a perder, partia enlouquecidamente para o ataque. “O jogo ainda está aberto, dá pra empatar” o comentário feito na transmissão da rádio parecia atingir em cheio os ouvidos dos atacantes bugrinos e dos defensores americanos que estavam acuados, temerosos, só contando os segundos para o fim da partida. Foi quando uma jogada de linha de fundo encontrou novamente Jajá, que colocou no fundo das redes: 3 x 3. Aí era só deixar por conta da torcida. Ela já iria sair do Farião com um gosto de vitória na boca, afinal resgatar um empate assim não era fácil. Eram 44 minutos do 2º tempo, o céu estava fechado, mas a energia que vinha das arquibancadas entrou em campo. Em mais um chute arriscado de fora da área, Jajá, vence a meta de Cleiton e faz: 4 x 3!

Impossível, inacreditável. Como poucas vezes, o Farião explodia, num êxtase sem tamanho. Os torcedores se abraçavam, vibravam, incrédulos... era impossível guardar a euforia, que tomou conta do campo naquela hora.

Curiosamente, a derrocada do América começaria nesse jogo. Depois desse resultado, o time entrou numa marcha engrenada rumo ao abismo, que culminou com a queda do time para a 2ª divisão do campeonato Mineiro. Certamente, o dia 8 de fevereiro de 2007 foi um dia histórico para o Guarani e para o esporte divinopolitano. Em meus 11, 12 anos de Farião, nunca presenciei uma partida com tamanha emoção, era algo inacreditável, quase irreal. A vitória era do Guarani, era de Jajá.

Euller, o 7 do América inconsolável e a comemoração de Adriano e Eduardo
Foto: Gazeta Press - Pedro Vilella

Quem disse que páginas históricas são escritas apenas pelos grandes astros? Quem disse que é preciso ganhar milhões de euros, ser campeão do mundo, jogar no Barcelona ou na Seleção Brasileira para ser personagem de um acontecimento histórico dentro das quatro linhas? Jajá não era nada disso, o Guarani não fez uma boa campanha no Mineiro (de novo) e teve que brigar contra o descenso, mas tenho certeza que quem presenciou esse jogo naquela quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007 no Farião, se rendeu a magia sempre inexplicável do futebol, de transformar o impossível em realidade.

O volante Samis abraça o treinador Célio Costa após o 4° gol
Foto: Gazeta Press - Pedro Vilella

Guarani 4 x 3 América, foi o meu jogo do ano de 2007.

Aqui os melhores momentos com a narração de Cléber Faria 



E aqui os gols do Guarani com a épica narração de Ricardo Lúcio



Ficha Técnica

GUARANI: Fernando, Clayton (Charles), Eduardo, Elmo e Magal; Samis, Anderson Tôto, Cafu e Tiago Piaba (Jajá); Adriano (Milton Tanque) e Haender. Téc.: Célio Costa.

AMÉRICA: Cleyton, Luiz Felipe, Caçapa, Fabrício Soares e Hallen; Fernando Miguel, Léo Salino (Gabriel), Fabrício Minhoto (Márcio Diogo) e Evandro (Maranhão); Euller e André. Téc.: Leandro Machado.

Árbitro: Juliano Lopes Lobato
Público: 2.195
Renda: R$ 16.563,00
Haender (56’), Márcio Diogo (60’), Caçapa (72’), Maranhão (76’), Jajá (81’, 86’ e 90’)