11 de dezembro de 2015

"O Auge e a Estreia": o dia que encontrei Rogério Ceni

Rogério Ceni se despede dos gramados nesta sexta feira. E a gente que é apaixonado por futebol percebe que está ficando mais velho é quando se lembra de ter acompanhado a carreira inteira de um jogador. Foi assim com Ronaldo e agora com Rogério. Lembro de quando criança ver Zetti debaixo das traves do São Paulo naquele time fantástico de 93 (sou tão tarado com futebol que minhas primeiras lembranças de vida se confundem com jogos e remetem a 1992, com 6 anos de idade) e só depois ver Rogério Ceni assumir o gol do Tricolor, de onde só está saindo este ano.

E eu tive a coincidência de cruzar pela primeira vez com ele, justamente em um dia em que ele atingiu a marca de maior goleiro-artilheiro da história. Mas aquele dia era marcante também pra mim. Contei essa história em um texto acadêmico no meu 1° ano de faculdade, lá em 2007 e reproduzo agora de novo.


"O Auge e a Estreia"* 

*texto escrito em 2007 no 1°P da faculdade de Jornalismo, numa aula da professora Mônica Kimura.



Era um dia cercado de expectativa. Dois lados de uma mesma moeda, num mesmo evento e no mesmo local. Para o primeiro personagem, seria o dia da consagração, de se entrar para a história do futebol mundial. Ele seria o goleiro que mais havia marcado gols na história, e aquele jogo era o momento. Para o segundo, era a estréia. A primeira vez em que pisaria profissionalmente num gramado de futebol. Um já conhecia todas as ‘manhas’, já era experiente, titular do time por mais de 10 anos, ídolo da torcida e com mais nada a provar para ninguém. O segundo, era apenas um estreante, com a ansiedade e o frio na barriga presentes em todos os que vão fazer algo pela primeira vez.

Era agosto de 2006, Cruzeiro x São Paulo entrariam em campo pra mais uma rodada do Campeonato Brasileiro da Série A daquele ano. Para muitos, atletas e membros da imprensa, apenas mais uma partida no currículo. Para o goleiro e para o ‘repórter’, um dia atípico. Os dois já estiveram antes no Mineirão, o primeiro sempre como atleta, atuando sempre contra os times mineiros, estava acostumado a conviver com as ‘celebridades’ do mundo da bola, com o assédio por parte da imprensa. O segundo, algumas vezes na arquibancada, sempre vendo os personagens principais do espetáculo lá de cima, e até quem sabe, com uma pontinha de inveja daqueles que ‘assistiam’ o jogo dali de baixo, de tão perto. Mas agora, estariam no mesmo lugar, dentro de campo. Mas para o ‘repórter’ ver pessoas no qual ele só via pela TV e estar ao lado dos maiores nomes da imprensa esportiva nacional, era uma responsabilidade muito maior. Ele tinha a missão de fazer a cobertura do time visitante, que para o seu azar – ou sorte – além da marca histórica que poderia ser atingida, era “apenas” o atual campeão mundial de clubes.


Quando a partida começou, parecia que ali seria mesmo uma tarde atípica. O primeiro tempo foi um massacre do Cruzeiro que já abriria uma vantagem de 2 x 0. E teve a chance de matar o jogo no final do primeiro tempo quando teve um pênalti a seu favor. Parecia certo o resultado, o goleiro via sua tarde histórica ser adiada e o ‘repórter’ teria menos trabalho, pois não haveria fato histórico e fazer a cobertura do time perdedor é relativamente mais fácil, principalmente quando não se trata de um clássico regional.

Mas ali a sorte começaria a mudar. O penalti, defendido pelo goleiro deu novo ânimo a equipe são-paulina, que logo recebeu uma falta a seu favor. O goleiro, capitão da equipe e responsável pelas cobranças, ajeitou a bola e marcou. Pronto, só faltava 1 para a marca histórica.


Fim de primeiro tempo, o goleiro sai de campo cercado pelo batalhão de repórteres (onde estava nosso segundo personagem) querendo o melhor áudio, o melhor registro, afinal marcando ou não mais um gol ele já era uma peça fundamental na partida: tinha defendido um penalti e marcado um gol. A primeira etapa estava completa, mas o melhor estava por vir. Não iremos fazer um descrição completa do jogo, mas o fato é que a oportunidade apareceu: penalti! Ali o goleiro se consagrava e era a grande chance. Chance de entrar de vez para a história do futebol, de ser o maior goleiro-artilheiro do mundo. E ele não desperdiçou: Gol, 2 x 2. Estava completo. Um pênalti defendido e dois gols marcados. Ao fim da partida, ele sai cercado mais uma vez pelo batalhão da imprensa, que priorizou mais a ele do que ao time mandante. A mudança de foco colocava todos os repórteres lado a lado, de rádio querendo a melhor fala, TV buscando a melhor imagem, jornal querendo a melhor foto... e nosso segundo personagem tentava buscar ali no meio daquela luta também seu espaço. Era apenas um estreante no meio de tantas ‘feras’, mas nem por isso deixaria de tentar o melhor registro. Fim de jogo, missão cumprida. A consagração de um lado...um início de caminhada de outro.


Acredito que Rogério Ceni, nunca se esqueceu desse jogo. Será uma daquelas partidas no qual ele irá contar aos seus netos, quando estiver com os seus 85 anos sentado na varanda de casa. Mas, o que ele não sabe, é que pra mim também vai ser difícil de esquecer. Não defendi pênalti, não atingi uma marca histórica, nem marquei gol, mas fiz a minha estreia na imprensa esportiva. E minha participação final naquele dia, foi uma entrevista com o próprio Rogério. No qual ele dizia da satisfação, das homenagens que recebera por parte do clube e da torcida. Por coincidência, ali se encontravam talvez, os dois personagens mais interessados no dia. Que começou cercado de expectativa e terminava com uma aura de satisfação. Era o auge de um, marcando o início do outro. Coincidências? Não sei. Apenas acho bacana ter pra contar, a mesma história de um dos melhores atletas do país, como também sendo minha.