18 de janeiro de 2016

A saga de uma transmissão alternativa...**

Todo mundo que já trabalhou com futebol e rádio já passou por algumas situações que rendem boas histórias pra contar. No interior então, essas histórias se multiplicam. Sempre digo aos amigos da imprensa esportiva de Divinópolis que ainda falta um livro pra compilar todas as boas histórias que já ouvi por ali.

Em 2012 eu trabalhava na Rádio Minas de Divinópolis e além da cobertura de Atlético e Cruzeiro, fazíamos também o dia a dia do Guarani, e naquele ano tivemos a sorte de acompanhar o Bugre num Campeonato Brasileiro depois de mais de 30 anos de ausência. Tínhamos uma equipe fantástica, tanto em entrosamento quanto em qualidade. Héverton Guimarães, Léo Gomide, Diogo Ramalho, Oliveira Lima, Lucas Carrano, Taylor de Freitas, Leo Lasmar, Afonso Alberto, Garcia Jr... era uma galera boa. 

E em julho daquele ano, na 2ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série D, nos deslocamos, Héverton, Lima e eu para cobrir a estreia do Bugre fora de casa, em Volta Redonda-RJ saindo a partir de Divinópolis. Mas não contávamos com um "atalho" que quase botou a transmissão a perder...


A SAGA DE UMA TRANSMISSÃO ALTERNATIVA

**Texto escrito em 13 de julho de 2012



A Série D do Campeonato Brasileiro já é bastante marginalizada aos olhos da mídia em geral. Pouco se ouve falar, notícias sobre a competição são divulgadas somente nos programas locais, seja de rádio ou TV, e até mesmo entre os torcedores, encontra alguma resistência pela concorrência dos “jogos maiores”.

Mas falaremos de futebol mais tarde...


Na rádio e na TV onde trabalho, temos a missão de cobrir o cotidiano do Guarani de Divinópolis, que disputa a competição pela primeira vez em sua história. Transmitimos todos os jogos, afinal é nossa missão como jornalistas que somos, divulgar e noticiar tudo sobre o time da cidade.


No domingo, dia 8, partimos de Divinópolis com direção à Volta Redonda-RJ, onde o Guarani realizaria seu segundo jogo na competição, naquele mesmo dia, enfrentando o Volta Redonda no estádio Raulino de Oliveira, vulgo Estádio da Cidadania. A cidade não era bem um caminho fácil, partindo de Divinópolis. Localizada no sul fluminense, Volta Redonda dista cerca de 450 km de Divinópolis, dependendo do trajeto escolhido. Tínhamos 3 opções disponíveis e pra isso, nosso amigo Google Maps deu uma mãozinha na escolha do “menor” caminho, afinal, teríamos que chegar a solo fluminense bem antes de 14h.Claro que escolhemos aquele que nos daria a menor distância e consequentemente o menor tempo gasto. E este caminho era passar pela cidade de Andrelândia. Cidadezinha daquelas no meio do nada e longe de tudo, onde uma poesia de Drummond seria facilmente incorporada ao hino do município. A cidadezinha era muito bem sinalizada e para nossa alegria, na saída da mesma constava uma placa informando que Volta Redonda estava a poucos kms a frente. 



De volta a estrada, uma sinalização informava a cidade de “Passa Vinte” que seria a divisa dos estados de Minas Gerais com Rio de Janeiro. Caminho certo e alguma tranqüilidade de chegar à Volta Redonda em pouco tempo. Eis que o asfalto termina.

A estrada de terra começou com muito boa qualidade, inclusive com tratores limpando a pista, o que leva a crer que um asfalto chegará por ali em breve. Um fiscal da obra veio até nós e claro, queríamos saber o que havia a frente:

- Seguindo por aqui, eu chego a Volta Redonda?
- Sim, é só continuar por aqui.
- São quantos km de estrada de terra?
- Uns 20 – respondeu o fiscal

A beleza do visual que essa estrada alternativa proporcionava era algo que merecia os registros fotográficos a seguir.




O Lima gostou da paisagem...

Estrada de chão, até aqui em boas condições

A paisagem das montanhas mineiras, tendo como pano de fundo um céu cinza e um clima frio formava uma combinação perfeita para uma manhã de domingo. Seguindo por estrada de chão, até então em boa qualidade, não contávamos era com isso:

Tanque na reserva: Agora a porra tinha ficado séria!

Logo quando detectamos que nosso combustível poderia nos deixar na mão a qualquer instante, surgiu o trevo da tal Passa Vinte. Tudo bem, era só ir até lá e abastecer, não é? Isso se a estrada até lá não estivesse completamente interditada, como nos informou um cidadão que tocava suas vaquinhas calmamente de um lado a outro da estrada:

- Pode ir reto, por aqui ocês num saem em Passa Vinte não. A estrada termina logo ali embaixo.
- E onde tem um posto de gasolina mais próximo?
- Ah...(pausa de uns 5 segundos) uns 20km aí pra frente. Lá no Falcão (sic).

No meio do nada, estrada de terra e sem o menor sinal de civilização à frente a gasolina ainda ameaçava nos largar na mão a qualquer momento.
Já tínhamos andado quase 5 km a mais, quando um mini trevo e uma placa indicando “Volta Redonda” a frente, mas sem a sinalização de kms. Um rapaz com chapéu de palha, camiseta e montado no lombo de um cavalo descia a estrada, sorridente. Respondeu ao nosso cumprimento e muito solícito em ajudar quase desceu do lombo do bichinho pra nos responder

- Ocês tão no caminho certo aqui, é só ir reto.
- E posto de gasolina, qual o mais próximo aqui?
- Ah sô... acho que uns 20km aí na frente tem

20 KM DE NOVO???

A mesma informação e mais kms a frente. E a gasolina acabando. Com a matemática de consumo de um carro popular (um Renault Logan), temíamos que 20 km era estrada demais. Mas o pior, esses 20 km eram só uma base que poderia ser de 80 a 100, vai saber! Já tínhamos andando uns 15 desde a primeira informação, do fiscal lá no início da estrada de terra...

O problema é que a estrada foi ficando ruim. E mais apertada. Parecia que há anos um carro de passeio não se aventurava por ali. E com a velocidade baixa, desviando de tudo quanto era buraco, o consumo só aumentaria...


A procura dos 20km que nunca chegavam...

E a estrada que era boa no início foi ficando assim...

Margeando a ferrovia do aço, que era o único sinal de civilização por ali, seguimos em frente. Até aparecer na nossa frente um resquício de esperança. Um sitiozinho, bucólico, daqueles de janelinhas de madeira, embaixo da ferrovia era nossa única alternativa. Na garagem da casa, havia um Fiat Uno estacionado, sinal que o liquido tão precioso para a modernidade se encontrava ali naquele final de mundo. O senhor com olhar desconfiado – natural, pois não deve ver alguém parando por ali com muita freqüência – nos recebeu bem e atendeu nossa solicitação com respeito ao combustível. Pagamos 7 reais pelos 2 litros de gasolina. Acha caro? Se ele tivesse cobrado R$ 35 o litro nós teríamos pagado. Afinal, onde é que tinha posto de combustível mesmo? “Só a uns 20 km aí na frente”.

Abastecimento alternativo: Garrafa pet + mangueirinha = carro andando por mais alguns kms


O alívio do Lima, debaixo da Ferrovia do Aço

De volta ao asfalto, uns 50 km após iniciarmos a travessia da estrada de chão, atingimos então o povoado de Falcão, já no estado do Rio de Janeiro. Aquele que nosso segundo informante da estrada, que tocava seu gadinho lentamente, havia nos dito ficar “a 20 km aí na frente”.
Felizes por encontrarmos de novo algum lugar parecido com uma cidade, paramos em frente a um mercadinho, onde uma senhora acabava de fazer suas compras para o almoço de domingo. E claro ansiosos por um posto de gasolina.

- Onde é o posto de gasolina mais próximo daqui?
- Só lá no Quatis (sic). Aqui não tem.
- E onde é?
- Pode seguir em frente aí. DÁ UNS 20 km DAQUI!

Divisa dos estados: ainda estava longe

Eu não sei qual a medida o pessoal daquelas bandas tem de 20 km, porque dessa vez foi rápido. Para nossa sorte, pois ao chegarmos ao tal povoado de Quatis, o tanque já estava no sopro ou apenas no cheiro, vai saber...

Futebol alternativo, caminho alternativo, acontecimentos alternativos... fica a dica de quando for cobrir algum jogo da Série D, verifique seu tanque de gasolina!





E pra completar: Guarani x Volta Redonda ficou 0 x 0. Com um público de 191 torcedores (sendo 5 do Guarani) e com 13°C de temperatura...