28 de novembro de 2016

O 'diablo' sai do inferno: A saga do América de Cali na Série B colombiana



Cinco anos depois aquela fatídica noite de 17 de dezembro de 2011 chega ao fim para o torcedor do América de Cali. Após perder a disputa de pênaltis para o modesto Patriotas de Tunja na "promoción", um dos gigantes do futebol colombiano conhecia pela primeira vez o descenso após 57 anos ininterruptos na elite da Colômbia. Com 13 títulos do campeonato nacional e um incrível tri-vice consecutivo da Copa Libertadores da América na década de 80 (o time também foi vice em 1996), o time de Cali que tem como símbolo o “diabo” parecia ter se acostumado ao inferno da segunda divisão, mas encontrou o caminho de volta novamente ao vencer o Quíndio neste domingo por 2-1 no mesmo estádio Pascual Guerrero que há cinco anos atrás presenciava a queda.


A derrota nos penaltis para o Patriotas em 2011: o início da tempestade do América
  
Quando um grande time cai, a expectativa é que ele retorne logo no primeiro ano e geralmente é isso que acontece. No Brasil todos os grandes que caíram retornaram logo. Na Argentina o River Plate rebaixado também em 2011, voltou logo no ano seguinte. E parecia que isso aconteceria também com o América, já que em seu primeiro ano de Série B o time disparou na liderança do Apertura com 38 pontos em 18 jogos, ficando 5 a frente do segundo colocado. No quadrangular semifinal o time não perdeu e se garantiu com folga na final. Era o melhor rendimento da história da Série B colombiana até então e o time estava invicto jogando em seus domínios. Um brasileiro fazia parte do time nesta época, o zagueiro Eduardo Ferreira hoje com 33 anos e atua no Pune City da Índia. Eduardo que tem nacionalidade de Guiné Equatorial, já passou por CRB-AL, Macaé-RJ e Anapolina-GO. Na decisão do Apertura, bateu o Unión Magdalena nos penaltis após empatar duas vezes por 1-1 e se garantiu na disputa final do acesso.

Porém no Clausura a equipe não repetiu a mesma campanha avassaladora, mas deu para o gasto. Terminou a primeira fase na terceira posição com 34 pontos, 9 atrás do Deportivo Pereira. Na disputa do quadrangular semifinal, a equipe somou apenas 9 pontos contra 15 do líder Alianza Petrolera com direito a sofrer um 4-1 em casa para o mesmo Petrolera. Aí veio o primeiro grande baque. Na final entre os vencedores do Apertura (América) e Clausura (Petrolera) os diablos perderam nos pênaltis, viram o adversário conquistar o acesso e foram para a disputa da “promoción”, contra o terceiro pior colocado da primeira divisão que era o Deportivo Cúcuta. No primeiro jogo diante de seu torcedor no estádio Pascual Guerrero, o Cúcuta venceu por 4-1 obrigando o América a golear na segunda partida para conseguir o acesso. E isso não aconteceu, a vitória magra por 2-1 fez com que o adversário permanecesse na primeira divisão e obrigava os diablos a jogarem mais uma vez a segunda divisão. 
 
Goleado em casa pelo Cúcuta, o América via as chances do acesso imediato irem por água abaixo

Em 2013 a boa campanha inicial se repetiu. O time liderou o apertura e fez 1 ponto mais que em 2012 aumentando a vantagem para o segundo colocado para 7 pontos. Porém no quadrangular semifinal o time não repetiu a mesma campanha do ano anterior e ficou de fora da decisão, vendo o Unión Magdalena garantir a vaga para decidir o acesso. No Clausura o time foi líder de novo, mas dessa vez mais apertado. Somou 33 pontos contra 32 do Fortaleza, mas sucumbiu no quadrangular, perdendo a vaga na final para o próprio Fortaleza, dando adeus assim a qualquer chance de ascender a elite. Três brasileiros fizeram parte da equipe neste ano: o meia Junior Paraíba (foto) de 28 anos que hoje atua no Confiança-SE, o atacante Flávio Carvalho de 31 anos que defendeu o Batatais na Série A2 do Paulista em 2016 e o meia Wander Luiz que disputou o Campeonato Mineiro de 2016 pelo Tombense e hoje atua no Kelantan da Malásia.


2014 chegava e com ele o terceiro ano seguido da equipe na segunda divisão. Para esta temporada chegaram jogadores experientes, principalmente com atuações destacadas na própria divisão de acesso como o zagueiro Yoiver González e o goleiro uruguaio Alexis Vieira. Vários jovens desconhecidos também foram contratados, caso dos espanhóis Jesús Suárez e Diego Gregóri, além da promessa Steven Lucumí considerado um dos melhores jogadores do acesso naquele ano. O treinador era John Jairo Lopéz e a equipe já não conseguia repetir as boas campanhas dos dois primeiros anos. Na primeira fase foram apenas 3 rodadas na liderança, terminando em terceiro com 32 pontos, 2 atrás do líder Atlético Bucaramanga e 1 do Llaneros. Foram 9 vitórias, 5 empates e 4 derrotas, o que ocasionou a mudança do treinador.

Luiz Augusto Garcia assumiu e no quadrangular semifinal conseguiu superar Quindío e Llaneros, mas foi superado pelo Jaguares na final. A obrigação de vencer o Clausura pairava novamente sobre os ombros já carregados do América e o time suou para conseguir se classificar na 8ª posição com 30 pontos, superando o Real Cartagena somente no saldo de gols (8 a 2). Foram 8 vitórias, 6 empates e 4 derrotas na primeira fase. No quadrangular o time ficou na lanterna do Grupo B com apenas 6 pontos conquistados, sepultando mais uma vez o sonho do acesso. 

O retrato de mais uma tristeza: o time fracassa pela terceira vez na tentativa de acesso

O quarto ano consecutivo do América na segunda divisão contaria com uma mudança significativa: a fórmula do campeonato mudaria. Agora, uma equipe não tinha que vencer Apertura ou Clausura para se garantir na final e decidir uma vaga na primeira divisão, além do sistema de “promoción” (jogo contra o terceiro pior colocado da primeira divisão) ter sido eliminado. Em 2015 o sistema foi de todos contra todos em turno e returno com os oito melhores colocados decidindo em quadrangulares duas vagas para a elite. O América terminou a primeira fase na terceira posição, somando 56 pontos e caindo no quadrangular ao lado de Real Cartagena, Universitario e Bucaramanga, time de melhor campanha na primeira fase com 70 pontos. No quadrangular mais uma vez o time viu o acesso escapar, perdendo para o Universitário por 4-2 e para o promovido Bucaramanga por 1-0 em casa. Era mais um ano de tristeza.


Então se iniciava o quinto e último ano do América na Série B, com o mesmo formato do campeonato anterior o time treinado por Alberto Suárez fez a segunda melhor campanha da primeira fase, somando 60 pontos, 10 a menos que o líder Deportivo Pereira. E era hora de espantar o fantasma do quadrangular final. Antigos algozes como Real Cartagena e Universitário estavam novamente no caminho, ao lado do Quindío, mas dessa vez o América conseguiu o acesso somando 13 pontos e botando um ponto final no inferno da Série B.


O time agora decide o título contra o Deportivo Pereira no mês de dezembro.


Ídolos e destaques

Um dos destaques do time é o veterano atacante Ernesto Farías. O argentino de 36 anos tem uma passagem apagadíssima no futebol brasileiro – esteve no Cruzeiro entre 2010 e 2012 – e chegou ao América em janeiro de 2015, marcando 30 gols em 60 jogos, se convertendo num dos jogadores mais queridos pela fanática torcida roja. Farías marcou aos 20’ minutos do 1° tempo o gol que abriu o placar para a vitória que levou o América de volta a primeira divisão e faz mistério em torno de seu futuro. O jogador declarou no ano passado que encerraria a carreira dando de presente ao torcedor o acesso a primeira divisão, porém a boa fase faz com que a torcida clame para que o argentino permaneça para o campeonato do ano que vem.

Ernesto 'Tecla' Farías: o líder do América de Cali no retorno a primeira divisão

Outro ídolo da equipe e também com passagem apagada no futebol brasileiro é o atacante Cristian Borja de 28 anos, principal goleador do time com 11 gols. Borja esteve no Internacional em 2007 e no Flamengo em 2010, não deixando qualquer saudade (ou até mesmo lembrança) nos torcedores colorados e rubro-negros. Também passou por Caxias-RS e Mogi Mirim-SP antes de retornar ao futebol colombiano onde defendeu o Independiente Santa Fe em 2012 e rodar por mais três anos no futebol mexicano.