11 de janeiro de 2017

Campeonato Catarinense: o mais equilibrado do país



Quem não é muito fã dos Estaduais com certeza não acompanha de perto o Campeonato Catarinense. Marcado por rivalidades entre capital-interior e outras grandes cidades do estado, o torneio é o mais equilibrado - e porque não o mais interessante - do país atualmente e sempre inicia com no mínimo 5 equipes favoritas ao título, diferente da maioria dos outros estados, porém Figueirense e Avaí da capital Florianópolis, Joinville, Criciúma e Chapecoense dominam o campeonato desde 1972 com uma pausa somente em 1992 quando o Brusque surpreendeu e ficou com o título. Ao todo, 23 equipes já levantaram a taça do Campeonato Catarinense na história. Este ano o campeonato será marcado pela tragédia ocorrida no final do ano passado com a Chapecoense, que é a atual campeã do torneio. O Verdão do Oeste conquistou em 2016 seu 5º título após empatar com o Joinville por 1-1 na Arena Condá, com o elenco histórico que foi vitimado pelo acidente do dia 29 de novembro.

O Catarinense é disputado em dois turnos e os campeões de cada um se enfrentam na final para a decisão do título. Os dois piores na soma geral dos dois turnos são rebaixados a segunda divisão. O torneio começa no dia 28 de janeiro com as seguintes partidas:

Almirante Barroso x Joinville (estádio Camilo Mussi)
Figueirense x Brusque (Orlando Scarpelli)
E no domingo com mais três partidas:
Chapecoense x Inter de Lages (Arena Condá)
Metropolitano x Tubarão (SESI Blumenau)
Criciúma x Avaí (Heriberto Hülse)


EQUIPES

Além da Chapecoense, atual campeã que irá defender o título com uma equipe obrigatoriamente toda reformulada, a briga pelo troféu de campeão deverá ser bastante equilibrada novamente.

A festa pelo título de 2016 da Chapecoense

O Figueirense vai tentar dar uma resposta a seu torcedor após a queda pra Série B do Brasileiro e ter que ver o maior rival Avaí voltar a elite nacional. O time que passou o rival em 2015 no numero de títulos se tornando o “maior campeão” de Santa Catarina, precisa retomar a hegemonia do estado para acalmar os ânimos de seu torcedor. A última conquista do Furacão do Estreito foi em 2015 em uma decisão marcada por uma polêmica fora de campo. A vantagem de dois resultados iguais na decisão era do Joinville, porém o Figueirense levou o título após os dois empates sem gols devido a escalação irregular de um atleta do time tricolor ainda na primeira fase da competição.
Bill é uma das caras novas do Figueira

O Figueira vem com muitas caras novas para a temporada e até o momento vários jogadores que participaram da campanha do rebaixamento no ano passado já deixaram a equipe, caso do goleiro Gatito Fernandez, o zagueiro Werley, o meia Bady e os atacantes Everton Santos, Rafael Moura e Lins. Até agora chegaram no Estreito além do técnico Marquinhos Santos, o atacante Bill, ex-Ceará, o zagueiro Dirceu, entre outros.


Do outro lado da ponte Hercílio Luz, o Avaí apesar de feliz com a ascensão a elite nacional precisa voltar a vencer o Estadual, já que o último título foi em 2012. Naquela ocasião o Avaí comandado por Cléber Santana não deu chances para o rival nos dois jogos da final e venceu por um placar agregado de 5-1 (3-0 no primeiro jogo na Ressacada e 2-1 no Orlando Scarpelli). De lá pra cá o time não conseguiu mais sequer chegar a final e no ano passado teve que lutar contra o rebaixamento. Porém 2017 começa diferente pelos lados da ilha. Animados com o retorno a primeira divisão nacional e com a queda do rival, o Avaí promete entrar para retomar a hegemonia estadual e para isso contará com um time reformulado. Chegaram na Ressacada o lateral Leandro Silva, vindo do rival Figueirense, os zagueiros Gustavo e o colombiano Salazar e o atacante Denilson. Ídolo do torcedor, o meia Marquinhos segue na Ressacada ao lado de alguns atletas que se destacaram na série B como o lateral Capa, o volante Renanzinho e o atacante Iury.

O último título do Avaí em 2012: o clássico do "créu" acirrou ainda mais a rivalidade na capital


O Joinville é outro que precisa dar uma resposta para sua torcida já que despencou da Série A para a C em apenas dois anos. Dono da maior sequência de títulos do campeonato estadual - foi octa campeão entre 1978 e 1985 - bateu na trave nos últimos três anos de forma consecutiva perdendo os dois primeiros para o Figueirense e o último para a Chapecoense, o time do norte do estado se reformulou e contratou 11 atletas para o inicio da temporada, entre eles figuras conhecidas do cenário nacional como o meia Lucio Flávio. Em 2017 o JEC terá o desafio de quebrar um jejum que já dura 16 anos, já que a última vez que conquistou o título foi em 2001 vencendo o Criciúma na final. Na época o time comandado por Artur Neto atropelou o adversário na final fazendo 3-0 na primeira partida em casa e 2-0 em Criciúma. Para voltar aos dias de glória, o Joinville precisará de muito mais que superação.

O Criciúma vem de algumas temporadas sem empolgar, tanto no estadual quanto na Série B do Brasileiro. O último titulo foi em 2013 quando o time do técnico Vadão superou a Chapecoense na final e garantiu o 10° título da história do clube. Para este ano o novato Deivid, ex-Cruzeiro terá a missão de levar o time carvoeiro para uma campanha que no mínimo empolgue mais seu fanático torcedor.

Ano passado caíram o Guarani de Palhoça e o Camboriú que serão substituídos por Atlético Tubarão e o Almirante Barroso. O Atlético Tubarão não é o mesmo time que já teve dias de glória no cenário estadual e até nacional, chegando a disputar a Copa Sul-Minas em 2002 e ficando em 5° lugar. O atual foi fundado no ano de 2005 com o nome de “Cidade Azul” e já esteve na primeira divisão em 2008 quando acabou ficando na lanterna e voltando para a segunda divisão no ano seguinte. O pensamento agora é não repetir a campanha ruim da estréia na elite e o time contará com atletas de renome como o atacante colombiano Rentería com passagens por Internacional e Atlético-MG e Rafael Ratão, ex-Ponte Preta.

Rentería é o grande nome do Atlético Tubarão na volta a elite catarinense

Já o Barroso da cidade de Itajaí, retornou ao profissionalismo em 2016 após 45 anos de afastamento com o pé direito já que se sagrou campeão catarinense da Série B retornando a elite de cara. O alviverde já foi vice-campeão catarinense no ano de 1963 quando perdeu o título justamente para o rival citadino Marcílio Dias. O time sem estrelas vai para a disputa sonhando em se manter na primeira divisão.

O Inter de Lages, de uma das cidades mais frias do país vem conseguindo destaque no estado e também nacionalmente, disputando por duas edições consecutivas a Série D do Campeonato Brasileiro. O time que ganhou fama no twitter por causa de suas postagens bem humoradas vem com jogadores jovens e algumas apostas mais experientes como o conhecido da torcida Michel Schmöller, o atacante Paulo Henrique do Atlético-MG e o goleiro Nei. O Brusque é outro que tentará se manter na elite e terá a seu favor o comando do lendário Mauro Ovelha (foto), figura que conhece como ninguém os campos de Santa Catarina. O goleiro Ricardo e o meia Eliomar, ambos ex-Figueirense são as apostas mais experientes. Para fechar, o Metropolitano de Blumenau que trabalha desde dezembro visando o Estadual terá peças como o argentino Mariano Tripodí, o goleiro Vilar e o zagueiro Elton como mais experimentados.

HISTÓRIA

A primeira edição do Catarinense foi disputada em 1924, mas é marcada por uma polêmica já que somente times da capital Florianópolis disputaram a competição, excluindo as equipes do restante do estado. Os campeonatos de 1925, 1926, 1934, 1935 e 1936 também não contaram com times do interior do estado, o que até hoje gera protestos por causa da contagem de títulos oficiais. Mesmo assim, a Federação Catarinense de Futebol anos mais tarde homologou os torneios como edições do Campeonato Estadual. O primeiro campeão foi o Avaí que disputou o título com mais 5 equipes: Figueirense, Externato, Florianópolis, Trabalhista e Internato.

Time do Avaí de 1924, o primeiro campeão catarinense com Boos; Loureiro e Zequinha; Zanzibar, Waldemar e Joel; Accyoli, Maciel, Mambrino, Aroldo e Carlos Pires.

O Figueirense, maior campeão do estado com 17 títulos venceu o primeiro somente em 1933. Na época o alvinegro superou o Brasil da cidade de Blumenau em uma final polêmica. Na a equipe de Blumenau venceu o Figueirense, mas a federação cassou o título alegando que o meia José havia recebido a quantia de 1.500 réis para trocar o Caxias de Joinville pelo Brasil e como o campeonato era amador, a prática era proibida na época. Foi marcado um novo jogo e o Figueirense venceu por 7-3 numa verdadeira batalha campal onde o zagueiro Ferraz do Brasil quebrou a perna e foi parar no hospital.

Vários clubes que se sagraram campeões já não existem mais no cenário do futebol catarinense, caso do Externato em 1925, Lauro Muller de Itajaí em 1931, Atlético de Florianópolis em 1934, CIP de Itajaí em 1938, Ypiranga de São Francisco do Sul, tricampeão em 1935, 36 e 40, SE Perdigão de Videira em 1966 e o Ferroviário de Tubarão em 1970. Vários outros existem atualmente apenas no amadorismo, apenas com categorias de base ou como clubes sociais, casos do América de Joinville (campeão em 1951 e 1952), Carlos Renaux de Brusque (campeão em 1950 e 1953), Olímpico de Blumenau (campeão em 1949 e 1964), Paula Ramos de Florianópolis (campeão em 1959) e o Metropol de Criciúma que na década de 60 levou 5 títulos (1960, 61, 62, 67 e 69). Outros como o Hercílio Luz de Tubarão (campeão em 1957 e 1958) tentam ressurgir no cenário estadual. O time disputou a última edição da segunda divisão terminando na 7ª posição e não conseguindo o acesso.

O Metropol de Criciúma que dominou a década de 60 no futebol catarinense


Lauro Muller campeão em 1931

Hercílio Luz de Tubarão: bi campeão 1957-1958. Foto: Acervo Homero Roberge/Diário Catarinense


Confusões e rivalidades

O campeonato catarinense é marcado por muitas rivalidades regionais e aqui não somente dos times da mesma cidade como no caso de Avaí e Figueirense. Quando os times da capital vão jogar no interior em cidades como Chapecó, Joinville e Criciúma recebem uma pressão extra enquanto estão em campo. As cidades em si também nutrem bastante rivalidade e isso por muitas vezes já fez o campeonato terminar em confusão ou em decisões fora das quatro linhas. Em 1931 temos o primeiro registro de campeonato decidido por uma atitude extra campo. O Lauro Muller se sagrou campeão e conquistou seu primeiro troféu, mas não precisou jogar pra isso, ganhou por WO, já que os dirigentes do Atlético Catarinense revoltados com a decisão da Federação em adiar o jogo, proibiram seus jogadores de entrar em campo para disputar a final e com isso a equipe de Itajaí foi declarada campeã. Em 1942 foi a vez do Avaí levar o troféu por causa de um decreto. O adversário, América de Joinville tinha diversos jogadores que serviam no 13° Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro e a instituição não permitiu que os atletas viajassem até Florianópolis para jogar a partida final. A diretoria do time do norte do estado tentou outra data para que os atletas fossem liberados, mas a federação não aceitou e decretou o Avaí como o campeão daquele ano.


Torcida do Figueirense invade o campo antes do final da partida em 1994


Em 1994 a torcida do Figueirense não agüentava mais o jejum de títulos do time e invadiu o gramado aos 32 minutos do segundo tempo, quando o time vencia o Criciúma por 2-0. O árbitro Dalmo Bozzano sem condições de continuar deu a partida como encerrada e a briga foi para o tribunal, que confirmou o título para o time da capital. Dois anos depois foi a vez de Chapecoense e Joinville protagonizarem uma grande polêmica que envolveu a arbitragem. O Joinville foi campeão do primeiro turno e caso vencesse o segundo seria declarado campeão e enfrentou a Chapecoense no jogo final do returno, precisando vencer por 2 gols de diferença para conquistar o título antecipado, caso contrário haveria uma final entre os dois times em dois jogos. A partida estava empatada em 2-2 até os 42 minutos da segunda etapa quando o zagueiro Lucio da Chape foi expulso. Depois de muita confusão e reclamação sobre a arbitragem o Joinville desempatou, mas aos 56 minutos o árbitro não viu o bandeirinha sinalizar que a bola da cobrança de escanteio do JEC tinha feito a volta por fora do campo. O JEC marcou o quarto gol, fazendo o estádio explodir de alegria, porém no vestiário, pressionado pelo time visitante o árbitro voltou atrás e a partida terminou 3 a 2 para o Joinville. 

Na primeira final, o JEC venceu por 2 a 0. Na véspera da decisão no estádio Índio Condá ninguém dormiu na delegação tricolor. Um foguetório acordou os jogadores do Joinville. Os dirigentes do time do Norte do Estado irritados decidiram voltar para casa. Os torcedores da Chape comemoraram o título, porém, o JEC conseguiu, depois de uma árdua batalha nos tribunais, remarcar o jogo para dezembro de 1996. Com gols de Marquito e Gilmar Fontana o Verdão foi campeão catarinense pela segunda vez em sua história.