16 de janeiro de 2017

Campeonato Gaúcho: todos contra a hegemonia da dupla GreNal

Foto: Diego Vara/Agência RBS

Um campeonato marcado por uma bipolaridade entre os dois grandes da capital, uma força destoante no interior, mas que raramente faz frente aos gigantes e diversos “clubes de verão”. Esse é o Gauchão que chega a 2017 diante de um cenário interessante: o Internacional atual hexacampeão vem para a disputa depois do maior baque de sua história, o rebaixamento para a Série B nacional. Enquanto o Grêmio que não vê a cor do troféu desde 2010 tirou o peso das costas com a conquista da Copa do Brasil quer retomar a hegemonia também no cenário do Rio Grande do Sul. Como dificilmente o título escapa desses dois, o Gauchão é um campeonato que não é muito difícil de se fazer uma análise. 

Além dos dois gigantes da capital, os times do interior vem se preparando para buscar seus objetivos, como a classificação para a Série D do Campeonato Brasileiro. Como Brasil de Pelotas e Juventude já estão na Série B e o Ypiranga de Erechim na C, isso abre a possibilidade para mais equipes sonharem em continuar ativas no segundo semestre e expandir os horizontes para o cenário de futebol nacional.

EQUIPES

Um dos times mais tradicionais do cenário estadual é o Cruzeiro. O time estrelado surgiu antes mesmo do seu xará famoso de Minas Gerais já que foi fundado em 1913, oito anos antes do mineiro. Campeão gaúcho em 1929 o time de Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre guarda a simpatia de diversos torcedores de Grêmio e Inter que o tratam como “segundo time”. Ano passado a equipe lutou contra o rebaixamento e teve que jogar fora de seu estádio e este ano novamente terá que mandar os jogos em Gravataí. Para o técnico Ben-Hur Pereira, a meta do Cruzeiro é se classificar entre os oito e brigar por uma das vagas na Série D para devolver o time ao cenário nacional.

O São José é outro clube de Porto Alegre, além da dupla Gre-Nal. O “Zequinha” como é carinhosamente conhecido divide com o Cruzeiro a simpatia de gremistas e colorados quando se trata de um segundo time e quer repetir a grande campanha do ano passado quando terminou a primeira fase com a segunda melhor campanha geral e caiu somente nas semifinais numa apertada derrota por 1-0 para o Internacional. Para este ano o segredo é a manutenção de vários destaques do ano passado e a chegada de alguns atletas experientes como o atacante Jô que estava no Londrina.

O "clássico" Zé-Cruz, alternativo no cenário gaúcho

O Caxias é uma equipe que busca o renascimento. Após a queda para a segunda divisão em 2015, o time conquistou o título e voltou a elite novamente este ano querendo renascer completamente. O técnico é Luis Carlos Winck, ex-lateral com passagens por Internacional, Atlético-MG e Santos. Foram 13 contratações que chegaram para reforçar a equipe que disputou a Série D no ano passado e que bateu na trave pelo acesso a C. Este ano, o grande objetivo é novamente conseguir a vaga na D. Já o seu rival Juventude vem embalado após o acesso para a Série B do Campeonato Brasileiro e apesar da troca de treinador – saída de Antônio Carlos Zago para o Inter e a chegada de Paulo César Parente – o time está focado em realizar um grande campeonato, fazendo frente até mesmo a dupla GreNal. A manutenção de vários destaques da campanha do ano passado é a chave para o Juventude voltar a brilhar.

Luis Carlos Winck tem a missão de reconduzir o Caxias aos dias de glória após o rebaixamento
Foto: Rafael Tomé/Divulgação

No interior a realidade é um pouco mais complicada e é aí que surgem diversos dos chamados “clubes de verão”, aquelas equipes que só funcionam durante o período do campeonato estadual. O Brasil de Pelotas e o Ypiranga de Erechim são as exceções, com o primeiro na Série B e o segundo tendo conquistado o acesso para a Série C irão ter calendário cheio durante todo o ano e vêem no Estadual uma bela oportunidade de alçar vôos mais altos. Já os menores como o São Paulo de Rio Grande, o Passo Fundo e o Veranópolis buscam apenas a permanência na elite estadual e quem sabe beliscar uma das vagas para a Série D para preencher todo o calendário. O Novo Hamburgo já com vaga garantida na quarta divisão também tentará se manter na elite.

HISTÓRIA

A primeira edição do Gauchão foi disputada em 1919 (sendo interrompido em 1923-1924 por causa da Revolução de 23) e já teve 16 campeões em sua história. O Brasil de Pelotas foi o primeiro a levantar a taça quando na final superou o Grêmio com uma goleada por 5-1 em plena capital Porto Alegre. Alguns dos campões gaúchos da história já não existem mais como o Sport Club Americano e o Renner, ambos de Porto Alegre que levaram os títulos de 1928 e 1954 respectivamente. Outros dois estão licenciados, caso do Santanense de Santana do Livramento campeão em 1937 e o Sport Club Rio-Grandense de Rio Grande, campeão de 1939. Dos campeões fora da dupla GreNal, somente o Brasil de Pelotas (primeiro campeão gaúcho em 1919), São Paulo de Rio Grande (campeão em 1933) e o Cruzeiro (1929) ainda estão na primeira divisão. Os dois times de Bagé, o Guarany e o Grêmio (campeão em 1925) seguem na disputa da divisão de acesso e o Guarany ainda é o único time que conseguiu conquistar dois títulos, em 1920 e 1938. O Pelotas, campeão em 1930 também disputa atualmente a divisão de acesso. O Grêmio Farroupilha da cidade de Pelotas e o Sport Club Rio Grande, campeões em 1935 e 1936 respectivamente, hoje participam da terceira divisão do estado.

Guarany de Bagé de 1936: único time do interior a conquistar dois títulos

De 1919 até 1960 o campeonato era disputado regionalmente e em sistema eliminatório. Somente o campeão da capital se classificava para enfrentar outras equipes do interior que também conseguiam se sobressair contra adversários de suas regiões. A partir de 1961 a disputa foi unificada e os times da capital e interior disputavam normalmente um mesmo campeonato, o que mudava era somente a fórmula de disputa. Nos primeiros anos de disputa do gauchão, de 1919 a 1939 os clubes do interior predominaram sob os da capital. Foram 10 conquistas contra nove dos clubes de Porto Alegre. A capital teve cinco conquistas do Grêmio, duas do Inter, uma do Cruzeiro, e outra do Americano. O interior teve 10 títulos com o Guarany de Bagé em duas oportunidades, o Grêmio Bagé, Rio Grande, Rio Grandense e São Paulo, ambos de Rio Grande, Pelotas, Brasil e Farroupilha, todos de Pelotas e o Grêmio Santanense de Santa do Livramento. Nestes primeiros dezenove anos de Gauchão o Grêmio, com cinco conquistas, foi o maior vencedor.

A partir da década de 40 no entanto a situação se inverteu e nenhum time do interior conseguiu chegar ao título. O Renner de Porto Alegre foi a única equipe a quebrar o domínio da dupla GreNal em 1954 e de 1955 até 1997 os dois gigantes da capital venceram TODOS os campeonatos, sequência que seria quebrada somente em 1998 com o Juventude de Caxias do Sul que chegou ao seu primeiro troféu. Dois anos mais tarde, o Caxias comandado pelo jovem Tite, hoje técnico da Seleção Brasileira também quebrou o domínio da dupla e se sagrou campeão.

O famoso Juventude da década de 90: campeão gaúcho de 98 com Sandro Sotilli, Mabília e Rodrigo Grall

Caxias do novato Tite em 2000: o último time a quebrar a hegemonia da dupla GreNal

De 2001 até 2016 novamente a dupla não deu chance a nenhum outro clube de ficar com a taça. Neste período duas finais foram bastante marcantes: em 2008 Internacional e Juventude chegaram até as finais, com o time da serra vencendo a primeira partida no Alfredo Jaconi por 1-0. Porém no segundo jogo disputado no Beira Rio, o Inter reverteu o placar de forma avassaladora, quando fez 8-1 no rival. E em 2011 a final entre Grêmio e Inter foi decidida nos pênaltis. Na primeira partida o Grêmio levou a melhor no Beira-Rio vencendo por 3-2, porém no jogo da volta no saudoso estádio Olímpico, o Inter devolveu o placar levando a disputa do título para as penalidades. A equipe colorada venceu por 4-3 e ficou com a taça iniciando a sequencia do hexacampeonato atual. O Internacional é o maior campeão estadual com 45 títulos e detém a marca de maior sequencia consecutiva: o octacampeonato conquistado entre 1969 e 1976.

Maior goleada da história de uma final gaúcha ocorreu em 2008: Inter 8 x 1 Juventude