26 de janeiro de 2017

Especial Campeonato Mineiro: as lendas do interior de Minas

Muito além dos grandes nomes da capital que dominam o Campeonato Mineiro, o interior também é cheio de jogadores talentosos e que marcaram seus nomes na história da competição. Quem nunca ouviu falar em Ditinho, Hgamenon, Pael, Guiba ou Brandãozinho quando começava um Mineiro? Atletas de grande talento que até tiveram suas oportunidades em grandes clubes, mas não conseguiram se firmar, mas viraram ídolos e referências de sucesso nas cidades onde defenderam.

Vamos relembrar alguns desses nomes que marcaram época e história no Campeonato Mineiro:


TATAU


Alfenense de 1980 foi o único time a derrotar o tricampeão Atlético. Tatau é o segundo agachado da esquerda pra direita

Talvez o mais antigo dessa lista, Antônio Carlos Delfino, mais conhecido como Tatau nasceu em Itajubá no sul de Minas em 1956. Passou pela base do Corinthians no início da década de 70 e teve passagens por diversos clubes Brasil afora como Ferroviária de Araraquara, Taubaté, Atlético Goianiense, Goiás entre outros, até encerrar a carreira no Inter de Lages-SC. Mas foi com a camisa do Alfenense, equipe verde e branca de Alfenas cidade de 78 mil habitantes no sul de Minas que Tatau fez história. Considerado até hoje um dos jogadores mais habilidosos que já passaram pelo clube que disputava o Mineiro nos anos 80, Tatau colocou seu nome na história do Campeonato Mineiro ao marcar o gol da vitória da equipe sobre o super time do Atlético de 1980, base da Seleção Brasileira e liderado por Reinaldo e Telê Santana.

O Galo vinha de uma seqüência de dois títulos mineiros e buscava o tricampeonato que parecia fácil, pois o time começou arrasador, goleando o Nacional de Muriaé por 5-1 e o Araxá por 3-0. Ainda venceu o Nacional de Uberaba por 3-0 e a Caldense por 2-1, sempre comandado pelo ídolo Reinaldo no auge de sua forma. Eis então que surge o Alfenense, time que fazia a sua estréia no Campeonato Mineiro. Tatau marcou o gol do jogo, a 1 minuto do 2° tempo e decretou a única derrota do Atlético naquele campeonato e dando ao time de Alfenas sua glória perante o estado todo. 

Após a aposentadoria Tatau vive em Itajubá, sua terra natal onde é pai de três filhos 


HGAMENON



Com nome de herói grego, porém com uma grafia particular. Não é “Agamenon”, nem “Hmenon” e sim uma junção dos dois: Hgamenon. O maranhense de Rosário nasceu em 1970 e é considerado um dos grandes atletas que já passaram pelo interior de Minas Gerais. 

Hgamenon começou sua carreira no Moto Club do Maranhão em 1989 e foi lá que ele despertou a atenção dos olheiros do Atlético, que se encantaram com o talento do jovem e buscaram o jogador que foi direto para o time profissional. Porém, Hga – como é conhecido carinhosamente – passou por dificuldades no Galo, quando descobriu um problema de saúde e ficou um bom tempo sem poder atuar. Quando voltou, Hgamenon disputou 13 jogos com a camisa do Atletico, fez parte do elenco campeão da Copa Conmebol de 1992, porém não conseguiu se firmar e a partir daí iniciou sua peregrinação pelo interior de Minas.
Hgamenon talvez seja um dos jogadores que mais defenderam clubes em Minas: são 18 no total. Mas foi no Guarani de Divinópolis que ele ganhou o status de ídolo. Em passagens intervaladas ele defendeu o Guarani por uma década, sempre utilizando a camisa de número 10.

Hgamenon virou ídolo do torcedor divinopolitano ao participar de momentos históricos do Bugre no Campeonato Mineiro dos anos 90 e 2000. Com ele em campo, o Guarani foi Campeão Mineiro da Segunda Divisão em 1994 e realizou jogos memoráveis, como a vitória sobre o Cruzeiro de Felipão e Sorín em 2001, quando o Bugre então lanterna do campeonato venceu por 3-2 com direito a um gol do camisa 10. Em seus últimos anos como profissional Hgamenon enfrentou o Guarani pelo Módulo 2 de 2010 defendendo o Itaúna e foi recebido pelo torcedor de Divinópolis com todo o respeito que mereceu. Encerrou a carreira no Itaúna, após o Módulo 2 de 2011.

Hoje Hgamenon é treinador. Ele possui uma escolhinha de futebol para crianças no bairro Ipiranga em Divinópolis onde faz questão de repassar pra meninada além do talento, toda a experiência que adquiriu em seus anos como profissional e não esconde que sonha em um dia comandar o time que o tornou ídolo, o Guarani.


GUIBA



O pequenino meio campo de apenas 1,70m é outro que vestiu várias camisas do interior mineiro e preocupava os adversários pela tamanha habilidade. Sua grande identificação foi com o Villa Nova de Nova Lima onde passou por seis oportunidades: 1994/95, 1997/98 e 2000/01. Guiba ficou marcado por integrar o time campeão do Módulo 2 em 1995 e também o que chegou a final do Campeonato Mineiro de 1997 contra o Cruzeiro. Nessa decisão o Villa chegou a vencer a primeira partida disputada no Castor Cifuentes, o Alçapão do Bonfim pelo placar de 2-1, mas perdeu o jogo da volta por 1-0 no Mineirão e como o Cruzeiro tinha melhor campanha acabou levando o título.

Guiba ainda defendeu equipes como Valério, Democrata-GV, Guarani de Divinópolis e no final da carreira ainda defendeu Formiga e Itaúna, onde fez seus últimos jogos como profissional no Módulo 2 do Campeonato Mineiro. Ao virar treinador, Guiba assumiu o Juventus de Minas Novas e tem passagens também por Tricordiano, Estrela do Norte-ES, Atlético Ituiutabano e foi auxiliar técnico de Gerson Evaristo no Formiga. Esteve em um curto período de tempo treinando o profissional do Villa Nova, mas assumiu de vez o comando da garotada do sub-20 e esteve a frente do time que disputou a Copa São Paulo de juniores em 2017.

O inesquecível Villa de 97: Guiba é o primeiro agachado da esquerda pra direita


DITINHO



Se perguntarem por Francimar Rosa dos Santos em Patos de Minas, dificilmente algum morador vai ligar o nome à pessoa. Mas se perguntarem de Ditinho, certamente a cidade inteira conhece. Maior artilheiro da história da URT, Ditinho é um dos maiores ídolos do clube e no Campeonato Mineiro sempre deu trabalho para os adversários. Natural de São José dos Campos em São Paulo nasceu em 21 de março de 1972 e só deslanchou na carreira de jogador em 1997 já com 25 anos, quando o treinador Ivan Silva que havia trabalhando com ele em Guarulhos o indicou para a URT, que formava o elenco para o Campeonato Mineiro. Ditinho que trabalhava como frentista na época, largou o trabalho e rumou para Patos onde na sua primeira temporada marcou 16 gols em 32 jogos, caindo rapidamente nas graças do torcedor.

Homenagem a Ditinho na bandeira da torcida da URT
A partir dali as coisas começaram a funcionar para Ditinho, que somou várias temporadas consecutivas pelo Trovão Azul até chamar a atenção do Guarani de Campinas que em 2000 o levou para o Brinco de Ouro para a disputa do Campeonato Brasileiro da Série A. Mas a casa dele era mesmo Patos de Minas e com a camisa azul e branca da URT ele não cansava de brilhar: foram 101 gols marcados pela equipe em 11 temporadas. 


Após encerrar a carreira em março de 2012, Ditinho foi eleito vereador pelo PMDB em Patos de Minas recebendo 1386 votos, sendo a maioria claro, de torcedores da URT. Porém, renunciou ao cargo em janeiro de 2014 alegando problemas familiares com sua mãe que na época morava em Campos do Jordão-SP.


KAO BAIANO

Cláudio Celio Cunha Defensor. De nome imponente a um apelido que todo mundo conheceu: Kao Baiano. O talentoso meia que encantou com a camisa do Villa Nova no final da década de 90 nasceu em 19 de fevereiro de 1974 na cidade de Macaúbas na Bahia, e deu os primeiros passos no futebol nas categorias de base do Bahia, onde chamou a atenção de olheiros do Atlético, que logo o trouxeram para Minas Gerais ainda em idade de juniores. Chegou à equipe profissional do Galo em 1992, mas não conseguiu se firmar, disputando apenas 4 jogos com a camisa alvinegra, não marcando nenhum gol. Depois disso passou por vários times em sua carreira, como América, Vila Nova-GO, ABC-RN até chegar ao Villa Nova na temporada de 1997, quando ao lado de Guiba, Alemãozinho e Milton comandou o meio arrasador do Leão do Bonfim vice-campeão daquela edição.

Com a camisa do Villa ele ainda disputou a Série C do Campeonato Brasileiro de 1999, onde enfrentou clubes como Fluminense e Bahia, mas o Leão não chegou a brigar pelo acesso neste ano. Kao Baiano também teve uma passagem pelo futebol da Coréia do Sul, onde jogou pelo Ulsan Hyundai até encerrar a carreira no Águia de Marabá em 2003. 

Depois de aposentado, Kao Baiano trabalhou fora das quatro linhas

Depois de pendurar as chuteiras, Kao chegou a ser supervisor das categorias de base do Atlético e fundou o Real Minas FC, clube de categorias de base na capital mineira. Ele ainda tentou se eleger deputado federal nas eleições de 2010 pelo PTdoB de Minas Gerais, mas conseguiu apenas 3777 votos não sendo eleito. Trabalhou também como observador técnico do Beira Mar, clube da cidade de Aveiro em Portugal.


PAEL

Foto: Bonna Morais


Um dos meias mais habilidosos do interior mineiro, Carlos Alberto Pael é uma das figuras mais lembradas quando se trata de Campeonato Mineiro da década de 90. Como jogador defendeu diversos clubes mineiros como Uberlândia, Caldense, Tupi, Ituiutaba, Uberaba e ainda teve uma passagem pelo Guarani de Campinas, em sua única experiência fora de Minas Gerais.

Com a camisa da URT
Em 1993, Pael teve uma rápida passagem pelo Atlético, porém sem muito sucesso. Atuou em apenas 4 jogos pela Copa Conmebol e pelo Campeonato Brasileiro, não marcando nenhum gol. Sua grande identificação foi com o Mamoré de Patos de Minas, onde iniciou a carreira em 1988 e defendeu por sete temporadas, com idas e vindas. Mas Pael também já vestiu as cores do rival, a URT em três passagens.
Após encerrar a carreira, Pael ainda coleciona conquistas como o Campeonato Regional Sub-20, conquistado no último mês de dezembro pelo Mamoré, que foi campeão sob o seu comando com 10 vitórias e apenas 1 derrota. 

O “olho clínico” do ex-meia também já revelou jogadores para o futebol brasileiro, como o caso de Maicon, atual zagueiro do São Paulo. Em 2005, logo após ter encerrado a carreira como jogador e em seu primeiro ano como auxiliar técnico, Pael selecionou Maicon numa “peneira” que o Cruzeiro fez em Patos de Minas e o indicou para Luis Eduardo, então técnico do Mamoré. Pael hoje além de técnico do sub-20 do Mamoré, será auxiliar de Wallace Lemos na equipe que vai disputar o Módulo 2 do Campeonato Mineiro.


ADEMÍLSON


Na gíria do futebol aquele atacante forte, de área, o típico camisa 9 também é chamado de “atacante que fede a gol”. Esse é o caso de Ademílson, um dos maiores ícones do Tupi de Juiz de Fora nos últimos anos. Ídolo incontestado do torcedor do Galo da zona da mata, Ademílson nasceu em Itaguaí no Rio de Janeiro e começou no futebol defendendo o Rio Branco-ES. Teve passagens pelo futebol mexicano e belga, antes de desembarcar em Minas Gerais em 2007 para defender o Ituiutaba. No mesmo ano, Ademílson chegou ao Tupi onde se firmou e virou uma das principais referências do time.

Campeão Brasileiro da Série D pelo Tupi em 2011 e com diversas participações de destaque no Campeonato Mineiro, Ademílson ganhou como homenagem um busto que selaria sua condição de ídolo do clube. Porém a relação entre jogador e clube chegou ao final de forma melancólica em fevereiro de 2015 com uma briga judicial. Nada no entanto que apagasse o carinho do torcedor carijó com o atacante.

Campeão Brasileiro da Série D, a glória mais alta de Ademílson com o Tupi
Foto: Antônio Carneiro/GloboEsporte.com

Aos 42 anos, Ademílson ainda está na ativa. Ou pelo menos esteve até o final do ano passado quando conquistou o título da Segunda Divisão Mineira com o Tupynambás de Juiz de Fora.


BALDUÍNO



Washington Diogo Balduíno é um daqueles casos onde o santo de casa faz milagre. Nascido em Uberaba em 6 de novembro de 1982 se tornou um dos maiores ídolos e referências do Uberaba Sport, um dos clubes mais tradicionais do interior de Minas.

Com passagens em vários clubes, incluindo os rivais Uberlândia e Nacional, Balduíno teve seus melhores momentos vestindo a camisa vermelha do Uberaba, onde participou de duas campanhas do time na Série D do Campeonato Brasileiro, em 2009 e 2010, esta última que o Zebu perdeu a vaga na Série C nos pênaltis para o Araguaína-TO. Mas ele também levantou troféus, sempre empunhando a faixa de capitão. Se sagrou campeão da Taça Minas Gerais de 2010 e da Segunda Divisão em 2015. Na temporada de 2009, ele foi eleito o melhor jogador do triângulo mineiro pela Rádio JM de Uberaba.

Apelidado de “Guerreiro” pela torcida do zebu, Balduíno sempre teve como características a raça e a liderança dentro de campo, fatores que o levaram a virar xodó de outra torcida, dessa vez no Campeonato Gaúcho, quando atuou pelo São Paulo de Rio Grande nas temporadas 2014 e 2015. Além de atleta profissional, Balduíno é graduado em fisioterapia pela Faculdade Talentos Humanos, profissão que pretende seguir quando se aposentar de vez dos gramados.


PIRULITO

Foto: Site oficial Villa Nova
Francisco Carlos Ferreira, ou simplesmente “Pirulito” nasceu em Conselheiro Lafaiete em 5 de agosto de 1954 e é um dos nomes mais lembrados quando se fala de Villa Nova no Campeonato Mineiro. E ele simplesmente marcou seu nome na história do Leão do Bonfim de duas formas, tanto dentro de campo fazendo parte de times memoráveis do Leão na década de 70, quanto como treinador em diversas passagens no comando técnico do Villa Nova. O apelido vem por causa de seu porte físico, sempre magro e esguio possuía facilidade de se livrar dos marcadores.

Pirulito se destacou para o futebol no Campeonato Baiano de 1970 defendendo o Galícia, vice campeão naquele ano. Em Minas, Pirulito também jogou no Atlético numa passagem relâmpago de apenas 4 jogos em 1974 e fez parte da leva de jogadores que o Galo emprestou na época para o Nacional de Manaus, mas foi no Villa Nova que ele encontrou sua casa, sendo campeão da Taça Minas Gerais em 1977 e depois da aposentadoria dos gramados, no comando técnico da equipe.

O filho João Paulo resolveu seguir os passos do pai e se tornou profissional sob o comando dele, quando foi campeão da Taça Minas Gerais de 2006 apenas com 17 anos. Hoje João Paulo está no Uberlândia, onde disputará o Campeonato Mineiro.

Foto: Mauricio de Souza/Jornal Hoje em Dia



ZEZITO

Foto: João Paulo Maia/GloboEsporte.com

Nascido na Bahia, mas registrado em São Paulo, José Araújo da Silva é um daqueles treinadores que nunca passaram por uma equipe da prateleira de cima do futebol brasileiro, porém sempre fez sucesso e deixou saudades nos times do interior onde foi comandante. Em Minas Gerais foram muitos: URT, Patrocinense, Uberlândia, Mamoré, Social, Democrata-GV, Ituiutabano e também se aventurou em clubes como o Arapongas, Londrina, Matsubara e Operário no Paraná, além do Rio Branco do estado do Acre, onde esteve na disputa da Copa Verde e da Série D em 2016.

Sua glória maior foi o título mineiro de 2002 com a Caldense, onde Zezito foi o responsável direto pela montagem do elenco. “Foi um time escolhido a dedo, barato e que deu um retorno fantástico que marcou a história da Caldense”, declarou em entrevista ao jornalista Renan Muniz. 


Zezito já passou por vários cargos dentro do futebol, foi atleta, supervisor, gerente de futebol e até mesmo sendo árbitro formado, apesar de jamais ter apitado uma partida. É o treinador que por mais vezes dirigiu a Caldense, em seis temporadas e hoje vive em Poços de Caldas.


BRANDÃOZINHO

Foto: AG Esporte


Um dos maiores treinadores do interior de Minas... sem trocadilhos, porque Brandãozinho não mede mais do que 1,60m de altura. Natural de Lavras no sul de Minas, João Batista Correa iniciou no futebol comandando o time de futsal do colégio Nossa Senhora Aparecida em sua cidade natal e recebeu o apelido de Brandão pelas semelhanças com Osvaldo Brandão que na época era técnico da Seleção Brasileira. Começou no futebol amador com o Fluminense de Lavras e depois para o futebol profissional onde ganhou o título de melhor treinador do Campeonato Mineiro de 1988 dirigindo o Fabril e repetiu o feito em 1997 quando levou o Villa Nova a final do torneio. 

Brandãozinho teve grande sucesso na maioria das equipes por onde passou. Campeão Mineiro da 2ª Divisão por quatro vezes, campeão do Módulo 2 em uma ocasião e por 5 vezes foi “campeão do interior” disputando a primeira divisão. Em termos de acessos, Brandãozinho subiu de divisão o Guarani de Divinópolis e o Fabril de Lavras por 2 vezes e o Mamoré de Patos de Minas em 3 ocasiões. Já comandou também Democrata de Sete Lagoas, Valério de Itabira, Formiga, Uberlândia e a Seleção Mineira em 1988.

Um detalhe sobre Brandãozinho é que além de treinador ele também é professor de matemática em sua cidade natal, tendo lecionado nos colégios CNEC, Nossa Senhora de Lourdes e Tiradentes. Com 58 anos de idade, hoje Brandãozinho vive em Lavras e está aposentado do futebol.



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